Belchior em entrevista à Viajeira

Belchior: “Metade do que dizem de mim é mentira”. Veja a entrevista!

BELCHIOR – Não sumi. Nunca sumi, nunca me escondi. Metade do que dizem de mim é mentira. Da outra metade não custa duvidar.
VIAJEIRA – “Eu tenho medo de morar em Ipanema, eu tenho medo de Minas Gerais”. São versos de “Pequeno mapa do tempo”, canção sua. Você tem medo de morar no Brasil? É por isso que você foi passar um tempo no Uruguai?
BELCHIOR – Boa pergunta! (risos) O humor ainda vale a pena. Eu tenho medo é dessa procura insistente pelo vazio. Não sou uma celebridade, não me submeto a essa lógica. A minha vida pessoal não deve interessar a ninguém. Não deveria. Disso eu tenho medo.
VIAJEIRA – E medo de avião?
BELCHIOR – Já tive, eu já até disse isso em outra oportunidade… eu tenho medo do valor das passagens (risos).
VIAJEIRA – Vamos ao que interessa: as suas letras são longas, discursivas, mas, ao mesmo tempo, aproximam-se do falar coloquial…
BELCHIOR – É verdade. Eu sempre me preocupei em fazer da canção um espaço de ressonância da língua portuguesa. A canção é uma forma de ampliar a sonoridade da palavra. Quando eu era mais jovem, me via como um literato. Depois percebi que a música popular trazia em si esse poder, o poder de suportar a palavra de uma forma irresistivelmente intensa. E a minha forma de compor, artesanalmente, mais transpiração do que inspiração, reafirma essa sua constatação.
VIAJEIRA – Ouvimos dizer que é comum que você leve não mais que um dia pra terminar uma canção. Como é isso?
BELCHIOR – Vocês estão bem informados. É um prazer ser entrevistado por quem se prepara pra isso. E, além disso, eu vejo a curiosidade estampada em seus olhos, um interesse real. Dá um certo desgosto responder a quem pergunta por perguntar, sabe… Enfim, muitas canções eu fiz em um só dia. É que, não raramente, eu componho pra gravar, sob um objetivo específico. Parece pouco tempo, parece fácil. Na verdade, essas músicas, ao nascerem, têm a idade de toda a minha vida mais um dia.
VIAJIERA – O eu lírico das suas canções confunde-se com o autor?
BELCHIOR – Em algumas ocasiões. “Como nossos pais”, música que muita gente conhece, é ácida, amarga, medicinal. Não é apenas uma crônica do conflito de gerações. Eu me insiro, eu me vejo, eu me sujei daquele drama. Talvez por ter ultrapassado a mera narrativa de um conflito, ou talvez pelo não distanciamento entre autor e personagem, foi possível chegar perto da alma. É esse sentimento que permite que essa música beire o atemporal.
VIAJEIRA – É, essa música não tem freio. Está pra nascer uma geração que não se sinta atingida…
BELCHIOR – Se um dia isso acontecer, se essa música deixar de provocar o que tem provocado, eu espero que seja por uma boa razão: terá ocorrido uma mudança cultural razoável. Ainda não vi isso. Continuamos como nossos pais. É um clichê bem triste.
VIAJEIRA – Como anda o projeto de tradução de suas músicas para o espanhol?
BELCHIOR – Camiñando. Outros rapazes latino-americanos vão ouvir o meu som…
VIAJEIRA – Você tem composto?
BELCHIOR – Tenho, tenho sim. Tenho mais de vinte canções novas.
VIAJEIRA – E quando elas serão lançadas? Quando haverá mais shows?
BELCHIOR – Essa é outra história. Pra outra conversa…Desliga esse gravador e vamos tomar um café (risos). Vocês tomam vinho?

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8 respostas para Belchior em entrevista à Viajeira

  1. Pena que foi tão curta a entrevistas! Que saudades de Belchior. Nunca entendi o porquê dele e dos demais artistas cearense, a exemplo de Fagner, Ednardo e Amelinha, não terem se juntado para fazerem um registro em DVD dos seus maiores sucessos.

  2. Vanusa disse:

    Gostei demais de saber notícias de Belchior!!!Eu fui responsável pelo sucesso “Paralelas” da autoria dele!Agora,gravando um cd novo com a produção de Zeca Baleiro,pensamos e conversamos sobre a minha vontade de gravar uma musica inédita dele!Vcs podem me dar um endereço ou fone ou email dele?Ou apenas dar meu email pra ele entrar em contato?Quero muito tb ter notícias dele!!!Obrigada!

  3. Apesar de curta, esta entrevista me proporcionou o prazer de dizer aliviado: que bom ter notícias deste grande poeta. Fiquei muito feliz, de verdade. Ainda mais sabendo que há mais de 20 canções inéditas. Belchior, pelo amor de Deus, nos salve da mediocridade, volte logo à ativa, cara! Nós, fãs, estamos morrendo de saudade! Espero que volte em grande estilo, se possível, com um DVD! Abraços e muito boa sorte na retomada da carreira!

  4. Rubens disse:

    Hummm u.u . Fiquei feliz por ter noticias do Belchior . Ate Vanusa nao tinha noticias dele , imagina eu ….. que sou apenas um fâ , rs!

  5. Bruno disse:

    Muito linda a estória desse cara.

  6. Dolores Ruiz disse:

    Amo as musicas de belchior.Tem dentro delas,um pouco de história de vida,de minha vida,lembranças boas,de um tempo que passou e marcou.Dentro das minhas saudades,moram as musicas de Belchior,admirado e querido.

  7. Francisco Ary disse:

    O pessoal da musica que foi nosso ídolo (belchior, vanusa, fagner, roberto carlos, etc.) nos tempos que sonhávamos feito garoto, quando reaparece – a exemplo de vanusa – reacende nossas saudades do que já não somos mais.

  8. Marcos de Liima Bastos disse:

    Acho que Belchior ainda não se deu conta de quanto ele é querido. Em entrevista ele disse que
    as suas músicas são músicas amargas, é desse amargor que nos cura.

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