Sérgio Ricardo em entrevista à Viajeira

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VIAJEIRA – Em 1967, no Festival da Record, você quebrou um violão no palco e jogou na plateia. Depois de 16 discos lançados, mais de uma dezena de trilhas para cinema e televisão (Glauber Rocha, Dias Gomes…), trilhas para o teatro (Gianfrancesco Guarnieri, Ziraldo…), mais de dez filmes (outros dois em fase de produção!), livros muito prestigiados, pinturas, enfim, depois de tanta arte vivida e bem brigada, não dá vontade de quebrar um violão na cabeça de quem insiste nessa história do festival?
SÉRGIO RICARDO – Não exatamente em quem insiste, mas na mídia de uma forma geral. Voltada para o imediatismo, o sensacional, seu prato preferido. E tome garfada daqui e dali, pra saciar a sua fome de notícia descartável pra vender o seu produto insípido, pouco se importando com a contribuição de suas vítimas, quase sempre do outro lado da moeda. Ainda bem que o meu gesto não se maculou com as alfinetadas, ao contrário, e de certa forma deu-me a fama de um contestador enfezado contra o sistema que a cada dia que passa vem revelando sua decadência, usando como ponte a mídia que ele comanda. Se ao invés de focar seu interesse num único gesto de um artista, procurasse, com o mesmo interesse, revelar sua contribuição, estaria prestando um serviço à sociedade, como, com toda modéstia, no meu caso. Infelizmente este destino não recaiu só sobre o meu trabalho, mas sobre a quase totalidade das criações culturais e artísticas de nível transformador contido na estrutura de nossa contribuição artística e cultural. A prova disso é o rebotalho cultural espalhado pelo país, inibindo o talento dessa juventude carente de espaço para dar continuidade ao nosso processo histórico de uma cultura invejada por todo o mundo.
VIAJEIRA – Em 1961, seu filme “Menino da calça branca” foi um dos marcos do Cinema Novo. Em seguida, os filmes “Esse mundo é meu”, “Juliana do amor perdido” e “A noite do espantalho”, embora pouco conhecidos no Brasil, tiveram grande repercussão internacional. Aos 80 anos, você retorna ao cinema com duas novas produções: “Bandeira de retalhos” e “Estória de João Joana”. Qual é o olhar do seu cinema sobre a atualidade?
SÉRGIO RICARDO – O mesmo que o olhar na música ou qualquer modalidade artística. No cinema, especificamente, pela dificuldade de se encontrar o dinheiro para sua produção. Arte cara, necessitando de muita gente e tecnologia para sua confecção, só desperta interesse na captação de recursos, tanto do lado do governo como da maioria dos patrocinadores, em filmes comerciais, distanciados do propósito empunhado pelos heroicos criadores do Cinema Novo, que na ossatura de seus filmes levantava discussões sobre nossa realidade política, a incentivar o brasileiro a tomar uma atitude diante de sua realidade. Esta função mais elevada da arte foi posta de lado e os filmes que se propõem a insistir na postura de fazer da arte uma arma de transformação têm sido jogados na vala do esquecimento, dando lugar às superficialidades dos subfilmes, em grande maioria acomodados nas panelas captadoras de recursos. Raramente, um ou outro espoca na praça, ganhando público no boca a boca, na periferia das possibilidades de produção. Abocanham prêmios em festivais, mas são, em sua quase totalidade, sem mercado de exibição. Salvam-se raras exceções.
VIAJEIRA – Conta um pouco da “Estória de João Joana”…
SÉRGIO RICARDO – Acredito que este meu próximo filme possa fugir à regra pelo fato de ser uma história baseada no único cordel do maior poeta brasileiro, Drummond, por ser um musical de comprovada aceitação pelo sucesso alcançado na exibição de concertos em municipais no Brasil, com orquestra sinfônica e interpretação dos maiores cantores que temos, além de ter despertado o interesse da intermediação de uma das mais sérias distribuidoras e produtoras do cinema brasileiro, possibilitando uma realização digna da intenção do filme, não só por sua estética como por seu conteúdo, ao se ter um drama em torno da mulher do campo rodeada por uma realidade contundente do campesinato brasileiro. A Lume Filmes proporciona a leitura de um exemplo à continuidade de nosso crescimento cinematográfico. Espero poder dar forma final digna a um projeto dessa envergadura.
VIAJEIRA – As lutas sociais sempre guiaram a sua vida e a sua arte. Na década de 70, sua participação foi fundamental na luta contra a remoção de moradores da favela do Vidigal. Tanto tempo passado, hoje sob um regime “democrático”, de repente nos deparamos com absurdos como a desocupação do Pinheirinho… Fale do universo da peça e do filme “Bandeira de retalhos”…
SÉRGIO RICARDO – Este é um assunto que requereria a visão honesta de um sociólogo, filósofo ou político para esmiuçá-lo dignamente. Eu me atrevo a dizer, como observador distanciado das ambições com o enriquecimento ilícito, que este é o aspecto mais repulsivo do sistema capitalista, favorecendo, através da grilagem da terra, o empobrecimento de milhares de famílias, com requintes de crueldade deploráveis pelo desprezo ao semelhante, pouco se lixando com as consequências de sua desonestidade. São os cafetões da pobreza, tanto governos como empreiteiras e capitalistas inescrupulosos, a demonstrar e cultivar uma pobreza muito maior em seus íntimos valores humanos. Esta espécie se constitui nos seres mais desprezíveis deste planeta. Em escala maior, os responsáveis pelas guerras, a fome e a miséria cada vez mais crescente no planeta. Em minha peça que pretendo filmar, “Bandeira de retalhos”, retrato minha vivência como participante de uma resistência na favela do Vidigal, no fim dos anos setenta, contra a tentativa de remoção dos moradores por imobiliárias endossadas pela ditadura, vencidas graças à união de pessoas de todas as áreas: política, religiosa, assistência social, etc., em parceria com as vítimas, que ao final, defendidas por Sobral Pinto, conseguiram impedir a remoção. É outro filme que pretendo realizar.
VIAJEIRA – Nosso Cinema Novo já virou cinquentão… Em junho, seus filmes serão relançados em DVD pela Lume Filmes. Qual é a sua expectativa?
SÉRGIO RICARDO – Minha expectativa é a melhor possível, em se tratando de uma distribuidora com o histórico da Lume Filmes. Entre minhas deficiências profissionais, talvez a mais marcante seja a da comercialização de minhas obras, por uma absoluta falta de interesse em extrair delas o lucro para a sobrevivência ou manutenção de uma bela conta bancária. Como me basta o cachê de meus shows, sobrevivo de meu trabalho mais braçal do que intelectual. Por estar sempre envolvido com a criação desta ou daquela forma, não me sobra tempo nem desejo de estar à disposição da tarefa de comercializá-la. Fico muito feliz quando uma entidade como a Lume Filmes se prontifica a preencher esta lacuna. Não pelo lucro em si, mas pela felicidade de saber que o fruto do meu trabalho encontra eco ou interesse em alcançar o maior número possível de pessoas. Aliás, esta é a aspiração legítima de todo artista.
VIAJEIRA – Direitos autorais e Roberto Carlos (o rei). Atualmente, na sua cabeça, qual é a relação?
SÉRGIO RICARDO – Independente do valor artístico do Rei, tenho certos problemas com sua conduta como cidadão. Não consigo perdoá-lo e a outros que seguem sua trilha, suas posturas, desde os idos da ditadura, quando se colocavam publicamente a favor do regime, e, agora, a favor das irregularidades detectadas no ECAD (Escritório Central de Arrecadação e Distribuição), a ponto de prontificar-se a desmanchar a luta de sua classe. Fica muito na cara uma posição unilateral de interesse por manter o seu próprio status, usando seu prestígio popular para envolver políticos na aprovação de uma lei que quer a fiscalização de um órgão que prejudica a classe. Acho essa postura, no mínimo, irresponsável.
VIAJEIRA – O projeto de lei 129/2012, em tramitação no Senado (atropelando tudo), propõe alterações inacreditáveis na lei de direitos autorais. Você que, há décadas, é um dos mais ferrenhos defensores dos direitos da classe artística, o que acha disso?
SÉRGIO RICARDO – Não há muito que explicar. Foi aberta uma CPI do ECAD e detectou-se um desvio de dinheiro astronômico destinado ao autor brasileiro. Branco ou preto, com ou sem sucesso, com mídia ou sem mídia, não importa. Todos têm direito de arrecadar o direito que lhe pertence. Como não há uma arrecadação confiável, não pode haver uma distribuição confiável. Pegam o bolo de milhões de reais pagos por TV’s, rádios, consultórios, clubes, etc., etc. Colocam tudo num bolo e distribuem conforme critérios internos, favorecendo este ou aquele de sucesso para que aparentemente esteja sendo imparcial, e, os demais, muitos deles nem constam na relação. Uma enorme parcela do dinheiro arrecadado está nas contas bancárias de membros da diretoria que retêm o grosso da arrecadação. Foram detectados, os nomes apareceram e foram apresentados à Justiça para as devidas condenações. O que mais se precisa saber para condená-los e fazer uma fiscalização no órgão? Ah, mas tem que passar pelo Congresso e ser votada a represália, patati patatá. Aí entra um autor de sucesso, não em nome da classe, mas de si mesmo e contesta. Os políticos fanzocas vão na lábia do cara, alguns levam uma bolada por baixo do pano e votam contra. Olhem a gracinha. Volta tudo à estaca zero. E o que é mais engraçado: os contraventores são pagos com o dinheiro dos autores.
VIAJEIRA – No meio desse alvoroço, você acha tempo pra escrever. Como anda o novo livro?
SÉRGIO RICARDO – Acabei de escrever. Chama-se “Igarandé: a aldeia de dois caminhos”. É um romance à procura de um editor. Quem se arrisca?
VIAJEIRA – E a música brasileira? Ainda tem jeito?
SÉRGIO RICARDO – Não sou profeta, mas me arrisco a dizer que a música brasileira ainda vai surpreender muito. A força de nossa musicalidade é infinita e não precisa se vincular a modismos vindos de fora. Basta seguir a inspiração popular, com as variadas modalidades rítmicas, melódicas, harmônicas e poéticas que caracterizam quase todas as regiões do país, numa diversidade a dar inveja a qualquer outra nação. Para que ela vingue, basta um tempinho de espera para que esses jovens espalhados pelas escolas de música cada vez mais abundantes do país, que se voltam para a nossa história cultural, aqueçam sua inspiração. Tenho visto e ouvido jovens que por enquanto não encontraram vitrine para o seu trabalho, com verdadeiras joias de composição baseadas em nossas fontes, de fazer inveja a qualquer um.
VIAJEIRA – Qual é o preço da coerência?
SÉRGIO RICARDO – É tornar-se escravo do amor. Tem suas compensações.

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Esse é o “Viajeira Entrevista”.

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Uma resposta para Sérgio Ricardo em entrevista à Viajeira

  1. Iracema Indig disse:

    Sérgio Ricardo sempre atual .

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