Hyldon em entrevista à Viajeira

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VIAJEIRA – Nascido em Salvador, logo te levaram para Senhor do Bonfim, no sertão baiano. Qual é a importância dessas primeiras vivências no seu universo musical?
HYLDON – Senhor do Bonfim é uma cidadezinha perto de Juazeiro, na Bahia. Do outro lado, atravessando o Rio São Francisco, está Petrolina, em Pernambuco. Eu tive muito influência do que eu ouvia nas feiras e nas festas, como a de São João, uma das maiores da Bahia. Tocavam por lá Luiz Gonzaga, Banda de Pífanos de Caruaru e bandas de frevo. Minha cultura, até os sete anos, foi a sertaneja.
VIAJEIRA – Com sete anos, a sua família mudou-se para o Rio de Janeiro. Não é novidade dizer que, na década de 60, o Rio vivia uma grande efervescência cultural. Como era ser um adolescente nessa época?
HYLDON – Eu nasci em 1951. Duas coisas me marcaram muito nessa época: o rádio e o rock and roll.
VIAJEIRA – Como foram as suas primeiras experiências como músico?
HYLDON – Comecei a tocar violão com sete anos. Com treze, ganhei uma guitarra Giannini Super Sonic do meu primo Pedrinho, dos “Fevers”, e formei uma banda de garotos da minha idade, chamada “Os Abelhas”. Fizemos bailes, programas de rádio e até tocamos na “Festa do Bolinha”, programa da antiga TV Rio, do Jair de Taumaturgo.
VIAJEIRA – Ao falar de soul no Brasil, é comum nos lembrarmos de uma “turma”, na qual se incluem, além de você, Tim Maia, Cassiano, entre outros. Como vocês se conheceram?
HYLDON – Cassiano e “Os Diagonais” eu conheci nos estúdios. Eles faziam backing vocal pra muita gente, e eu já tocava guitarra em gravações. Fui apresentado ao Tim nos estúdios da Philips. Cheguei com o Camarão, irmão do Cassiano, pra mostrar umas músicas pra ele. Logo ele me chamaria pra tocar na sua banda e fazer algumas parcerias. A nossa primeira foi “I don’t know what to do with myself”, que fez parte do segundo disco do Tim, do qual participei tocando guitarra também.
VIAJEIRA – Antes de gravar seu primeiro disco, você já era um jovem produtor bastante desenvolto. Conta um pouco do processo de gravação do seu primeiro disco, “Na rua, na chuva, na fazenda” (1975).
HYLDON – Foi muito simples. Fiquei um tempão compondo e fazendo os arranjos. Fui produzir na Polydor pra sacar mais de estúdio, e trabalhei muito com o Azymuth em discos e shows de vários artistas. Então, quando fui gravar, estava super entrosado com eles.
VIAJEIRA – Na sua boca, o que é o soul brasileiro?
HYLDON – Acho que é só rótulo. O que faço é música popular brasileira com influência de tudo que ouvi na minha vida, inclusive a soul music, o funk americano, o jazz, o blues, mas com muito Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Dorival Caymmi, Mutantes, Gil, Caetano, Chico, Edu Lobo…É muita gente.
VIAJEIRA – O disco “Deus, a Natureza e a Música” (1976) inaugura uma fase de desentendimentos com a indústria fonográfica. Depois de tanto tempo, como você enxerga esse período?
HYLDON – Consegui manter minha liberdade artística, hoje é o que importa. Quando se faz muito sucesso é natural que as pessoas queiram ouvir coisas parecidas, mas nunca gostei de me repetir. Isso veio do tempo em que eu fazia bailes, tinha que tocar igual aos originais, tirar os solos iguaizinhos… acho que fiquei meio traumatizado. Gosto de surpreender as pessoas com soluções novas, de música, de levada e de letras.
VIAJEIRA – Embora distante dos olhares indiscretos da imprensa, sabemos que você nunca se afastou, de verdade, da música. Fale das suas andanças entre esse período conturbado, no final da década de 70, e a sua retomada definitiva, com a criação de um selo independente e com a formação da banda “Zona Oeste”, no começo dos anos 2000.
HYLDON – As pessoas em geral – pois tem sempre um grupo que gosta de música boa e corre atrás – só se ligam no que toca no rádio e aparece na TV. É o que toca porque, infelizmente, tem alguém pagando pra isso. Eu sempre gravei meus discos, mesmo com maiores intervalos, mas nunca parei de tocar, de estudar e de compor, três coisas que me alimentam. Nos anos 80, o mercado estrangulou a produção artística. Começou a era do jabá, que eu espero que um dia acabe.
VIAJEIRA – Uma das marcas de “Romances urbanos”, disco inédito, é a grande quantidade de parcerias: Mano Brown, Céu, Arnaldo Antunes. Como elas surgiram?
HYLDON – Já tem tempo que venho compondo com outras pessoas. É interessante porque acabo pegando outros caminhos, desbravando outras vertentes. Ampliam-se as possibilidades.
VIAJEIRA – Além das parcerias, o que você destacaria nesse novo projeto?
HYLDON – A participação da minha banda, a “Zona Oeste”. São músicos maravilhosos, que vem trabalhando comigo desde o início de 2000. Sem falar dos músicos convidados. Além dos compositores conhecidos, tem alguns jovens talentos, como o Léo Cavalcanti, Andréa Santiago, Hanna Inaiah, Giulia Costa, Guinho Tavares. Dos antigos, tem parcerias com Zeca Baleiro, Jorge Vercillo, Pedro Luís e com o poeta Sérgio Natureza. Quem ouviu gostou muito do resultado dos arranjos, da qualidade de som e, modéstia à parte, estou cantando melhor e com paciência pra colocar as vozes. Outro ponto a destacar são os arranjos vocais. Ah, tem um música dedicada ao Tim Maia gravado pelo naipe original que tocou na “Vitótia Régia”, atual “Banda do Síndico”. Nessa música, convidei um cara em que eu me amarro muito. Ele é super musical, mas como faz comédia na TV, esse lado não fica tão valorizado: é meu amigo Serjão Loroza.
VIAJEIRA – E falta pouco pra parir?
HYLDON – Estou finalizando as vozes e mixando com calma pra não desandar. Mas a capa está pronta, é um desenho do grafiteiro e artista plástico Fábio Ruas.
VIAJEIRA – Tem que ter físico pra enfrentar a turnê que vem por aí… Como anda a pelada do Politheama?
HYLDON – Minha pelada é minha terapia, minha análise. Fora as três vezes por semana no campo do Chico (Chico Buarque), ainda malho numa academia perto de casa. Tocar duas horinhas é mole.
VIAJEIRA – Hyldon, seja em discos próprios, seja em regravações, como “Na rua, na chuva, na fazenda” (Kid Abelha) ou “As dores do mundo” (Jota Quest), as suas canções são muito executadas. Você está satisfeito com o sistema de arrecadação e distribuição de direitos autorais no país?
HYLDON – Já foi bem pior. Hoje o ECAD (Escritório Central de Arrecadação e Distribuição) faz um belo trabalho.
VIAJEIRA – A sua música tem seduzido as novas gerações. Você, que tem trânsito livre nas mais diversas “tribos” musicais, tem ouvido algo novo que lhe tenha despertado a atenção?
HYLDON – Ouço de tudo um pouco, gosto muito da galera do rap. Tenho participado de discos e até de clipes. “Chama os Mulekes”, clipe da “Cone Crew Diretoria”, está com 10 milhões de visualizações na internet. Agora mesmo, acabei de fazer uma melodia com o Sandrão do “RZO”, inspirado no filme “Colegas”, do Marcelo Galvão . Gravamos o clipe em São Paulo, com direção do Galvão. Aguardem.
VIAJEIRA – O selo “Seroma”, fundado por Tim Maia, na década de 70, é um marco da produção independente no Brasil. E hoje? Vale a pena ser independente?
HYLDON – Independência ou morte. Mas isso não quer dizer que eu não esteja aberto a parcerias. Se for pra somar, estamos juntos.

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Esse é o “Viajeira Entrevista”.

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